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Fé Incondicional - A história de Leonilde 

 

Essa é a minha história:

Sou neta de uma Hebréia com um gentio e sendo que o amor de minha avó materna foi contrariado pela família, ela e meu avô decidiram ir assim mesmo em frente com seu amor e daí nasceu minha mãe.

Minha avó foi, por esse fato, afastada da comunidade e perseguida durante anos por ter-se unido a um gentio.
Quero esclarecer que minha avó, pertence ao ramo de Benjamim, sendo que nossa família desse lado, segundo registros históricos se encontra na Península Ibérica desde a primeira queda de Jerusalém lá bem atrás durante o reinado de Nabucodonosor, tendo essa pequena comunidade permanecido em Portugal por milhares de anos sem retornar ao antigo Israel e tentado preservar seu modo de vida e tradições do mesmo jeito que era uso no tempo de Moisés.
Essa comunidade que reside em Belmonte é das mais antigas da Península e muito rígida nas suas leis.

Como dizia, minha avó teve de enfrentar inúmeras dificuldades para criar minha mãe, já que meu avô, pressionado pela família não teve depois coragem para assumir sua paternidade e abandonou minha avó a sua sorte.

Não teve ela, mais nenhuma chance que lançar mão de trabalhar nas casas de famílias como serviçal até que encontrou uma família de cristãos que a acolheram a ela e a minha mãe ainda criança, teria ela cerca de 3 anos de vida.

Minha avó teve de ocultar a sua fé, pensando no bem estar de sua filha criança e aceitou a ajuda que aquele casal lhe estava dando sem que nenhum deles lhe fizesse muita pergunta sobre seu passado.

Minha mãe cresceu, pois, educada na religião cristã, como católica, tendo recebido batismo como católica aos 4 anos e feito todo o percurso que normalmente faz um católico.

Minha mãe cresceu sempre na vergonha de ser filha de pai incógnito até os 20 anos, até que o homem que a criou acabou por lhe dar nome de pai.
Maior prova de amor não existe, quando um homem assume uma paternidade que não vem do sangue mas sim do espírito, por isso quando aos 18 anos de idade eu soube de toda essa história eu amei ainda mais esse homem que eu chamo de meu avô e lhe prestei sempre o maior respeito e honra.

Talvez por ter sabido de sua origem e se ter envergonhado disso, minha mãe, sempre ocultou essa verdade, tendo me educado a mim e a minha irmã mais nova 5 anos como católicas e cristãs, no entanto vivendo sempre nessa ignorância e mentira de nossas ancestralidades.

Posso dizer que durante 18 anos eu vivi numa família onde a mentira e o segredo era hábito, apesar de me inculcarem valores de moral que nada se enquadravam nessa prática, pois como cristã, a mentira é algo reprovável.

Meu pai, sabia da verdade, mas também ele sempre remeteu essa história para o segredo, nunca falando do passado.

Estudante de história, aos 18 anos por mero exercício de investigação, lembrei de fazer a árvore genealógica da família e deparei-me com a verdade.
Fiquei chocada e tive de confrontar a minha família com essa verdade.

Minha família, entretanto tinha passado por momentos de muita dificuldade econômica por causa de maus negócios de meu pai e isso desestabilizou emocionalmente a minha mãe.

Um dia nos bateram na porta e ela abriu.
Eram duas Testemunhas de Jeová.
Minha mãe, começou a estudar a Bíblia em 1973 e fez questão que tanto eu, então com 14 anos, tanto como minha irmã com 9, fizéssemos nossos estudos Bíblicos com ela e a acompanhássemos a todas as reuniões.

Nossa vida familiar se não estava bem por causa dos problemas econômicos, pior ficou.
Minha mãe mudou totalmente seus modos para com todos nós, tornando-se uma estranha por vezes.

Eu na época pensava que ela estava ficando louca e que isso se devia ao fato de meu pai não dar atenção para ela, empenhado que estava a trabalhar dando duro para recuperar financeiramente e providenciando para que sofrêssemos o menos possível com seus maus negócios.

Meu pai, nunca se opôs à decisão de minha mãe em estudar a Bíblia, mas também nunca a apoiou ou encorajou, dizendo que isso estava na consciência dela fazer ou não fazer.

Meu pai cresceu sem qualquer educação religiosa e nunca deu muita importância a tudo o que seja espiritual.

Minha relação com minha mãe era de obediência plena, muitas vezes não por genuíno amor, mas muito mais por medo, medo dos seus gritos e das pancadas que me dava, em que perdia totalmente o controlo quase me matando, descarregando em mim, a filha mais velha, as suas frustrações, medos e angústias.
Depois que tomou a decisão de receber o batismo, ficou ainda pior. 
Não falava mais conosco da mesma forma, relaxou no serviço da casa, deixou de dar atenção para a família, sua vida era vivida totalmente em função da nova religião.

Meu pai tudo aturou e sofreu calado.
Eu e minha irmã nos apoiamos muito nessa época.
Creio que nessa crise, eu e ela fomos mais unidas do que nunca tínhamos sido antes nem voltamos a ser nunca mais.

Cresci pois numa família meio destruída e só hoje entendo as razões e causas de toda aquela loucura!
Hoje quando faço a análise do que foram todos aqueles anos e da enorme influência que tiveram as Testemunhas de Jeová nas nossas vidas, vejo o quão perigosa é a sua organização.

Na época eu estava acabando o liceal e tentava dar entrada na Faculdade para cursar História.
Era meu sonho, poder tirar esse curso e seguir a carreira de investigação ao mesmo tempo que queria ser uma boa filha, em tudo obediente aos meus pais, tal como me fora sempre ensinado "honra teu pai e tua mãe e teus anos serão acrescentados".

As dificuldades eram tantas!
Minha mãe se opunha a que eu seguisse meus estudos, pois uma das cadeiras que eu tinha de fazer para ingressar na Faculdade era a cadeira de Filosofia e as Testemunhas de Jeová que nos estavam dando estudo Bíblico diziam que Filosofia era coisa de Satanás.
Esse nome maldito era mencionado a toda a hora. Tudo o que de ruim acontecia era obra de Satanás.

Se a comida pegava na panela, era obra de Satanás.
Se eu tirava más notas no Liceu, era porque eu estava pega por Satanás.
Enfim eu posso afirmar que vivi o inferno e que inferno! Eu, meu pai e minha irmã sofremos cada um a seu jeito.

Eu buscava consolo em meus avós maternos. Assim eu os olhava, como avós, pois não conhecia a história da origem de minha mãe.

Travei uma dura batalha, para continuar estudando, ao mesmo tempo que trabalhava ao lado de meu pai, o ajudando a pagar suas dívidas e cuidando da casa, já que minha mãe descurava essa sua tarefa.

Minha mãe recebeu o batismo em 1976 após a liberalização das seitas religiosas em nosso país.
Tínhamos vivido um período conturbado na vida política de nosso país e saído de uma revolução! 
As Testemunhas de Jeová então puderam ter mais liberdade para sua ação e minha mãe seguia no seu caminho no maior fanatismo.
Saía de casa todo o dia para fazer o trabalho de "campo" esquecendo suas obrigações como esposa e como mãe.

Eu tive de assumir aos 17 anos de idade o papel de dona da casa, cuidando para que tudo estivesse em ordem e nada faltasse a meu pai, a ela e a minha irmã.
Nada do que eu fazia, era bem feito, porque eu simplesmente não a acompanhava nas suas saídas de "campo" embora a acompanhasse em todas as reuniões no Salão do Reino.
Meu pai, foi-se fechando cada dia mais em si mesmo, fazendo do seu trabalho um refúgio para tentar esquecer que a família se estava a desagregar dia a dia.

Eu segurei as pontas até não agüentar mais.
Me negando como pessoa e como adolescente que era, não tive amigas nem amigos da minha idade. Minha vida se resumia a trabalhar, estudar e cuidar da casa.

Depositei meu amor filial naqueles dois seres humanos que eu tanto amava e que nem olhavam mais para as minha necessidades emocionais.

Minha irmã mais nova foi muito poupada a esse sofrimento, pois eu sempre a tentei proteger de tudo, escondendo suas saídas com as coleguinhas de liceu.
Quando ela começou namorando como qualquer adolescente faz, foi comigo que ela contou.
Fui mãe e irmã, aconselhando e dando a orientação possível, escondendo o seu namoro para meus pais, mas sempre vigiando para que nada de mal lhe acontecesse.

Sempre que ela queria sair com o namorado eu ia junto, fingindo que íamos no café do bairro pegar algo e eu ficava vigiando para que eles conversassem.
Dei muitos conselhos para ele e para ela, pois não queria de modo algum que acontecesse nada de errado.
Durante 5 anos eles namoraram escondido de minha mãe e de meu pai, embora meu pai desconfiasse nunca falou de nada.
Minha mãe queria nos ver casadas à força com rapazes da congregação, como se isso fosse a forma de nos fazer mudar nossa opinião sobre a religião que ela tinha abraçado.

Quando fiz 18 anos de idade, eu tinha finalmente entrado na Faculdade contra a vontade dela e foi durante uma investigação para o trabalho que queria apresentar para meu curso que me deparei com a história da minha família materna. Estava ali uma verdade escondida tantos anos.
Uma verdade que me atingiu como um raio.
Coloquei tudo em questão.

Então não era minha mãe uma Testemunha de Jeová batizada?
Não era algo reprovável a mentira?
Ocultar uma verdade não é o mesmo que mentir?
Chamar durante 18 anos de avô e de avó a duas pessoas que não têm o mesmo sangue que a gente, não é uma mentira?
Era o quê?

Confrontei minha mãe com essa verdade, meus avós maternos me confirmaram toda a história, pensando sempre que eu soubera de toda a verdade e que nunca tinha falado nada por respeito ou por não ter sido necessário esclarecer nada.
Procurei tentar entender a razão daquela mentira, mas não encontrava razão aceitável.
Afinal eu tinha uma avó e um avô, vivendo algures nesse mundo e eu nem conhecia!

Eu tinha vivido anos pensando que aqueles dois seres que eu tanto amava e que sempre chamava de avós eram de fato meus avós de sangue.
Passei a duvidar de tudo o que minha mãe dizia e duvidei de tudo mesmo. Até do que ela lia na Bíblia.

Vivi mais 10 anos com minha família, mas me tornei uma estranha.
Entrava e saía de casa, cumpria minhas obrigações, sofria em silêncio os gritos e ralhos de minha mãe, as brigas entre ela e meu pai, mas era uma estranha que vivia naquela casa.

Minha irmã, também ela saiu marcada por toda essa história, tornando-se fria, distante e egoísta.
Durante os 10 anos que vivi mais naquela que era minha família eu me fui fechando mais em mim mesma, dedicando pouca ou nenhuma atenção para meus pais.
A pouco e pouco aquela fúria fanática de minha mãe foi-se desvanecendo dando lugar a um queixume constante por falta de atenção e apoio dos irmãos da congregação e de sua própria família.
Eu nem estava lá!

Estava tentando viver minha vida como podia e sabia, trabalhando então já fora de casa, tinha meu emprego e estava fazendo tudo para me tornar independente.

Quando minha irmã se casou eu decidi sair também.
Minha tarefa estava cumprida, como irmã que sempre a protegera e como a mãe que ela não tivera para a acompanhar na adolescência.
Eu tinha feito o duplo papel e me tinha saído bem!
Tinha conseguido fazê-la feliz como eu não tinha podido ser.
Nunca namorei, nem casei!
Temi sempre que casando pudesse vir a ter o mesmo quadro de brigas em minha própria casa!

Comprei minha casa e fui saindo a pouco e pouco sem querer magoar demais meus pais ou ser demasiado brusca com minha decisão.
Pensava: Minha irmã se casou, eu estou com 28 anos, é hora de sair do ninho e deixar que meus pais se entendam de novo como marido e mulher.
Apesar de tudo eu os amava e queria mais era que eles se entendessem. Queria vê-los envelhecer juntos lado a lado felizes e se dando bem de novo, agora que as filhas eram mulheres feitas.

Nunca entenderam minha atitude.
Durante 5 anos, falava à distancia com eles, sempre que podia ia visitar e a cada ano que passava sentia que minha mãe estava menos fanática e encarando a religião como algo que se vive todos os dias mas não de forma agressiva e sim com amor, com humanidade, com solidariedade.

Acabamos grandes amigas.
Ela me confidenciava seus pensamentos e eu os meus anseios.
Cinco anos que foram para mim mais do que tinha sido toda a vida.
Uma amiga e companheira de verdade.
Se falávamos de religião era de forma simples, como uma conversa normal em que ela tinha suas idéias e eu as minhas e nenhuma impunha sua vontade à outra.
Mas aí, quando tudo parecia estar bem, o meu mundo desabou.

O meu e de minha família.
Minha mãe que sofrera de asma durante todos esses anos, passou mal e meu pai nem sabia o que fazer nesses casos, pois era sempre eu quem tratava dela e levava no médico.
Ele me chamou desesperado sem saber o que fazer, sentia-se perdido.
Estive ao seu lado quando ela deu entrada no hospital lutando para respirar.
Fui eu quem recebeu a notícia da sua morte e amparou meu pai quando ele desfaleceu de dor.

Minha irmã estava em casa, dando uma festinha de aniversário para o filho que fazia 2 anos nesse dia!
Eu tive de providenciar tudo sozinha, para o funeral.

Quis cumprir com todas as vontades de minha mãe.
Telefonei para o ancião da sua congregação dando a notícia e pedindo para que o corpo ficasse lá para ser velado e de lá saísse para o cemitério.
Tudo fiz para que a vontade de minha mãe fosse cumprida integralmente e ela recebesse um funeral cristão.
Meu pai deixou nas minhas mãos essa responsabilidade de tudo cuidar.
Também ele não estava em condições psíquicas para cuidar fosse o que fosse.

Apesar daqueles anos de martírio, de brigas, de gritos por causa do fanatismo religioso dela, ele a amara mesmo assim. Era toda uma vida juntos, 40 anos de vida em comum que terminava de uma hora para outra.
Estive sempre ao seu lado, nunca o abandonando uma hora que fosse. O meu ombro estava lá para receber suas lágrimas e para o carregar.
Engoli as minhas lágrimas para lhe dar força. Orava a Jeová para que me perdoasse e a perdoasse a ela de todo o mal que nos tinha causado ao longo de anos.
Eu sempre soube quem é Jeová. Nunca o neguei como meu Deus, nem a Jesus Cristo como Seu filho e Nosso Senhor.

Depois desse dia meu pai sempre me pedia o meu apoio e para não o abandonar.
E eu como podia? 
Minha irmã estava casada e com um filho criança, não podia nem queria cuidar do pai.
Despedi-me do meu emprego, abandonei minha carreira, fechei minha casa, deixei para trás meus amigos e minha vida para cuidar daquele homem que estava ali na minha frente pedindo ajuda.
Não era mais o pai, era um ser humano, perdido e sofrendo que eu amparava e dava conforto.
No meu coração corriam lágrimas de dor e pensava, quanto mais tempo vou ter ele ao meu lado?
Lutei entre a cabeça e o coração.
A cabeça me dizia, ele agora está sofrendo, mas logo se vai recompor e volta tudo ao normal.
Ele se vai fechar de novo no seu egoísmo e no seu trabalho. Vamos voltar a brigar e a nos desentender de novo.
Mas meu coração dizia, ele precisa de ti, do teu apoio, da tua companhia. E quanto tempo mais vais ter ele contigo? Pode ser que com essa perda ele abra o coração e veja que tem uma família ainda e que tem de a preservar.
Fiquei.
Fui ficando durante 3 anos.
Durante 3 anos trabalhando ao seu lado e ao lado de minha irmã que nunca trabalhara noutro lugar que não fosse na empresa dele, pois sempre foi muito acomodada.
O tempo foi passando e tudo voltou a ser como era antes.
Brigas, disputas entre mim e ele na empresa, minha irmã se metendo no meio, me humilhando por eu não ter casado nem ter dado netos para ele.
Voltei a viver um inferno, até o dia que meu pai me humilhou na frente dos empregados.

Eu não agüentei mais e disse como Abraão disse para Ló: Melhor nos separarmos e seguir cada um o seu caminho. Seremos sempre uma família pois nos unem laços de sangue. Serás sempre meu pai e serás sempre minha irmã, mas é melhor para todos que eu siga meu caminho como era antes de nossa mãe falecer do que continuarmos a nos magoar com questões de que um dia mais tarde nos possamos vir a arrepender.
Pedi meu quinhão hereditário materno para com ele poder me sustentar até arrumar um emprego ou um trabalho.
Meu pai me negou meu quinhão hereditário dizendo que eu não tinha direito a nada, minha irmã saltou dizendo o mesmo e foi a guerra.
Me expulsaram os dois de casa.

Naquele dia eu não vi nem meu pai, nem minha irmã a quem eu queria mais que uma irmã, na minha frente! Vi dois monstros, raivosos querendo me matar.
Tive de lutar na justiça para receber o que era da lei.
Durante esse tempo, fiquei impedida de trabalhar na minha profissão que é a mesma de meu pai.
Ele nunca permitiu que eu completasse a Faculdade e eu tive de trabalhar naquilo que ele me ensinara e que era a sua profissão: Design e Publicidade.
Durante 3 anos, eu lutei na justiça para receber minha herança e para que ele me liberasse da sociedade que tínhamos em comum, eu, ele e minha irmã.
Enquanto a justiça não me deu razão, eu passei necessidades como nunca tinha passado.

Me vi sem dinheiro, com uma casa para pagar no banco, sem trabalho e desequilibrada emocionalmente.

Caí doente e um dia estando no médico esperando minha vez na consulta se aproximou de mim uma jovem mulher.
Começou falando comigo pois me via chorando e com ar muito abatido.
Era uma Testemunha de Jeová.
Eu estava abalada por todas as coisas que estava vivendo e por todas as dificuldades porque estava passando.
Estava só, sem amigos, sem família, sem trabalho, sem saúde e sem perspectiva alguma na vida.
Me deixei levar como uma criança perdida a quem alguém dá a mão e ela vai seguindo.

Me deixei conduzir como uma sonâmbula e as Testemunhas de Jeová entraram de novo na minha vida.
Hoje eu revejo essa época como se de um sonho se tratasse, como se eu fosse movida por uma mão que segurasse os barbantes e eu fosse apenas uma marionete de feira.

Quando acordei eu estava já na organização, estudando a Bíblia e indo nas reuniões regularmente.
Pensei, meu Deus que estou eu fazendo aqui?
Uma voz me dizia que ali estaria a verdade, outra me lembrava o inferno que eu tinha vivido com minha mãe.
Lutava contra aquela engrenagem que me queria tragar, mas ao mesmo tempo não tinha coragem para mais uma luta.
Eu estava lutando em tantas frentes que parecia que todo o mundo estava contra mim.
Creio que perdi a razão e me deixei ir.

Agarrei-me às TJ como um náufrago se agarra numa tábua de salvação e nem percebe que a tábua está podre.
Como não conseguia emprego e vivia do magro fundo de desemprego, eu tinha muito tempo livre. Dediquei meu tempo ao estudo da Bíblia e à pregação.

Em poucos meses eu tinha 10 estudos Bíblicos por minha conta, mas sempre acompanhada por um membro da congregação mais velho.

Recebi o batismo no dia 18 de Janeiro de 1997 durante uma Assembléia de Circuito e me dediquei a Jeová.

Nesse dia estava consciente do que estava fazendo. Mentalmente eu disse para Jeová: Eu aceito, mesmo que aqui nessa organização não esteja a verdade, eu aceito ao Deus de Abraão, Isac e Jacó como o verdadeiro Deus, aceito a seu filho Jesus como o Cristo e meu Rei e tudo farei para conhecer da verdade e do propósito de Jeová Deus para com a humanidade.

Não dediquei minha vida à organização das Testemunhas de Jeová!

Dediquei minha vida a Jeová!

Isso é bem diferente.

Porque sempre achei que uma organização feita com seres humanos, mesmo que com a benção de Deus, tem sempre gente imperfeita pelo meio.

Lembrava o que tinha sofrido com a minha mãe e seu fanatismo, com o fanatismo dos membros da sua congregação e isso seria o meu escudo protetor.
Jamais deixaria minha vida mudar radicalmente e tornar-me impiedosa para com meu semelhante só por estar naquela organização.

Até aí, eu fora sempre bem recebida na congregação.
Como vivia só, recebia muitos convites para sair e conviver com alguns irmãos em pequenas festinhas.
Depois de receber meu batismo, os convites terminaram.

Pouco tempo depois, eu comecei a levar meus novos alunos dos estudos Bíblicos as reuniões no Salão do Reino.
A minha fila era olhada, pensava eu, com admiração! 3 jovens casais e respectivos filhos.
Todos eles já tinham sido antes contatados por irmãos sem qualquer sucesso.
Eu que era nova na organização em apenas 6 meses tinha conseguido o que nem os anciãos tinham conseguido fazer em anos.

Em um dos casais, o marido trabalhava para um ancião por anos e recebia todos os dias "lavagem ao cérebro" para começar um estudo Bíblico. Que nada!

Então apareci eu e em pouco tempo, consegui levá-lo às reuniões e iniciar um estudo Bíblico com toda a família.

Não sou melhor nem pior que ninguém.
Creio que é um dom que Jeová me deu, de saber falar e saber ouvir!
Sou amorosa com todo o mundo, mesmo com os que me maltratam eu falo com brandura e isso cativa as pessoas.

Pouco tempo depois os anciãos me chamaram e me retiraram todos os estudos, dando como desculpa o fato de eu ser batizada de pouco tempo.
O certo é que deram meus estudantes a uma irmã casada que recebera o batismo no mesmo dia que eu.

Pedi perdão a Jeová pelo que estava sentindo. 
No coração sentia-me injustiçada, na cabeça as palavras da organização sobre o ser dócil para com os pastores e ser-lhes em tudo obediente.

Mas no fundo eu sentia que era a inveja que estava trabalhando na congregação e isso me deixou desgostosa.

Todo o mundo sabia que eu estava batalhando na justiça para receber minha herança materna.
Certo dia fui chamada de novo ao corpo de anciãos e fui confrontada com uma exigência que considerei no mínimo um atentado à minha dignidade como ser humano.
Os anciãos me "sugeriam que logo que eu recebesse minha herança deveria como boa cristã, demonstrar genuíno amor pela organização doando 2/3 dessa herança".
Gelei!

Então não eram as Testemunhas de Jeová uma organização diferente da cristandade? Não era aquela organização que criticava acérrimamente todas as seitas religiosas que exigiam o dízimo aos seus acólitos?
Não era aquela organização que criticava a Igreja Católica por viver no maior luxo, chamando-a de "A Grande Meretriz"?

Não era dever dos cristãos proteger as mulheres viúvas e os órfãos?

Eu estava ali como órfã que era e sem marido, embora não sendo viúva, não era casada, tão pouco era divorciada, era solteira sem ter quem providenciasse ao meu sustento, tinha de providenciar para mim mesma.
Aí eu arrumei finalmente um trabalho, só que era longe, na Capital, coisa de 35 quilômetros e tinha de pegar o trem suburbano, um ônibus e fazer uma caminhada de 1 quilômetro.

"Quem não providenciar para os da sua casa é como os sem fé"! 
Depois que recebi o batismo nunca mais recebi qualquer ajuda de nenhum membro da minha congregação à exceção de uma irmã e seu único filho que no ano seguinte também recebeu o batismo.

Eu era constantemente repreendida pelo fato de faltar a algumas reuniões, pois trabalhava longe e nem sempre conseguia transporte para chegar a horas.
Muitas vezes ficava sem comer por horas pois saía correndo do trabalho e ia direto para o Salão do Reino para não falhar a uma reunião, terminava as reuniões com enormes dores de estômago e dores de cabeça, pois meu almoço era sempre fraco, já que para poupar meu magro salário eu levava apenas um sanduíche na bolsa.

Vivia permanentemente com receio de falhar uma reunião, ou de chegar atrasada.
Descurava a higiene da minha casa e minha saúde se ressentia disso, pois não posso com pó doméstico.
Comia mal e passava a vida a correr.

A irmã que me apoiava e seu filho, eram também eles vítimas de perseguição, pois o Irmão era Soropositivo e todo o mundo sabia que no seu passado tinha tido práticas homossexuais.

Eu fui a única pessoa na congregação que não se incomodou com o seu passado, nem com a sua doença, nutrindo por estes dois irmãos genuíno afeto cristão e dando-lhes a eles também apoio, pois o irmão já estava sofrendo muito com sua doença.

Romanos 14:13
Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão. 

Também por causa do meu convívio com estes irmãos, eu fui chamada aos anciãos e fui alertada para o fato do irmão ser portador do vírus do AIDS ao que eu respondi: sei bem que ele é portador do vírus do AIDS, mas o AIDS só é transmissível pelo sangue e por relações sexuais, ora nem eu e ele estamos em fornicação, nem vou receber sangue dele! Eu sou Testemunha de Jeová e Jeová é minha testemunha de que falo a verdade.
Me mandaram embora sem falarem mais nada, pois não arrumavam mais motivos para me perseguir.

Com tanta privação que passei e por causa da pressão a que estava permanentemente sujeita, eu caí doente, quer fisicamente quer espiritualmente.

Nunca recebi visita de pastoreio.
Durante semanas fiquei sem poder ir às reuniões até que finalmente, me foram bater na porta!
Eu abri e entraram dois anciãos de supetão na minha casa altercando comigo que eu estava me comportando como uma "cabrita" pois deixara de me reunir com a congregação!
Eu respondi que estava doente e que se não ia nas reuniões era porque não podia sequer sair de casa tal o meu estado de saúde debilitado, mas que também nenhum irmão ou ancião tinha se incomodado a vir perguntar se eu estava bem ou se estava carente de algum apoio.

Semanas depois, voltaram a bater na minha porta!
Eu não estava, tinha ido no médico e minha vizinha do lado depois me disse que tinham dado pontapés na minha porta e chamado alto e bom som, se afastando depois me chamando de cabra!

Meu amor pela congregação, realmente começou a esfriar com tanta perseguição e com tanta falta de amor e humanidade que eu via entre os irmãos.
Eu orava a Jeová pedindo apoio e uma orientação, até que finalmente um dia foi a gota de água!

Eu estava comprando o jornal e estava conversando um pouco com a dona da loja, nisso ela me diz: tem ali um homem na rua olhando para você.
Olhei e era o ancião presidente da congregação que me olhava fixamente. Eu o cumprimentei e ele virou o rosto.

Eu continuei a conversa que estava tendo com a senhora, até lhe estava falando sobre um tema Bíblico pois por muito tempo eu falava com ela sobre a Bíblia tentando iniciar com ela um estudo. Ela gostava de me escutar, mas não se tinha ainda decidido a fazer o estudo, mas eu mesmo assim falava.

Estive bem uma hora falando com ela e o ancião sempre lá olhando fixamente para mim e sempre que eu olhava na direção dele ele desviava o rosto tentando disfarçar que me estava espiando.

Eu saí e fui na direção dele e lhe questionei se queria falar comigo. Respondeu que sim que tinha muito que falar comigo.
Foi de uma rudeza desagradável, sem que eu visse razão para tal rudeza, eu questionei de novo: Se queria falar comigo porque razão não me devolveu o cumprimento há pouco, irmão? Tem algo contra mim? Eu lhe fiz algo de errado que não tenha disso consciência?

Respondeu que eu tinha de ir falar com o corpo de anciãos pois estava me comportando de forma pouco própria para uma cristã.

Eu lhe perguntei em quê?

Você é pouco obediente e sabe disso! Sabemos que já recebeu sua herança e ainda não fez o que devia fazer.
Quem quer ser ajudado tem de ajudar e sua responsabilidade como cristã é de dar a Deus o que é de Deus!
Tem muito irmão necessitado e você vivendo no luxo!

Minha decisão foi tomada ali na hora!
Lhe dei as costas e nem boa tarde lhe dirigi mais!
No dia seguinte eu fui nos correios e registrei a minha carta de dissociação com cópia para a Betel, explicando tudo o que ocorrera!

Nunca fui chamada a Betel e esse ancião continua presidindo a congregação da minha zona.
Minha herança era de dois terrenos pequenos que eu vendi e do dinheiro montei um pequeno negócio que é o meu magro sustento e uma casa de dois cômodos que partilhei com a irmã que sempre me ajudou e a quem o filho nosso irmão em Cristo acabou falecendo, deixando-a só. Ela também faleceu algum tempo depois pois já tinha muita idade e o desgosto acabou levando ela.

Hoje vivo só, mas tenho por minha companhia a meu Deus Jeová e ao seu amado filho Nosso Senhor Jesus Cristo, meu Rei a quem espero ver chegar numa nuvem para julgar os justos e injustos!

Tenho 43 anos de idade e meu nome é Leonilde Brito Pinto da Costa Santos.

Amo a Jeová, aceito a Jesus como o Filho do Deus vivo, meu Rei e meu Salvador, acredito que Ele, Jesus, se fez homem para cumprir a promessa que Jeová fez a Adão e a Eva no Paraíso de resgatar a humanidade da morte que é a paga pelo pecado da desobediência de Adão e de Eva.

Acredito que Jesus foi Cristo pelo poder do Espírito Santo e que foi sacrificado na estaca de tortura que dormiu na morte por 3 dias e que foi ressuscitado dos mortos por seu Pai celestial, que subiu nos céus e que está sentado no Trono à direita do Deus Vivo e que virá de novo em toda a Sua glória que todo o olho O verá, acredito que toda a Terra habitada terá de saber quem é Jeová, mas deixei de acreditar faz tempo que Jeová tenha uma organização na Terra e muito menos que essa organização esteja na STVBT.

Acredito que todos os que dormem hoje na morte serão acordados para receber o julgamento, justos e injustos.
Acredito que estamos vivendo os tempos do fim, mas o dia e a hora só o Deus Vivo sabe.

Deixei de acreditar que a organização de Jeová na terra esteja com a STVBT. 
Acredito muito mais que esteja no coração daqueles que acreditam no Cristo e que estão dando continuamente testemunho da Sua Palavra não de forma coerciva, mas com genuíno amor pelo próximo.

Não importa sequer que deixassem de ritualizar práticas que são somente isso rituais e não algo feito com o coração. Que importa celebrar a Páscoa e tomar nas mãos os símbolos se no coração não existe genuíno amor?
Se se está invejando o próximo? Se se levantam falsos testemunhos contra irmãos? Se se olha quem não acredita no mesmo que nós como coisa morta? 

Para Jeová ninguém está ainda morto! Só depois do Julgamento. Pois os que aqui estão presentes foram chamados como suas Testemunhas mas ainda não foram chamados a depor!


Lembro sempre aquela maravilhosa frase de Nosso Senhor Jesus o Cristo que disse: Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará. Mateus 6:6


Durante anos eu orei a Jeová para que abrisse o coração de meu pai terreno! 
Depois da nossa disputa nos tribunais para que me desse o que era a minha herança materna para dela me sustentar, nunca mais nos falamos!
Passaram 8 anos desde que o vi e falei com ele quando me expulsou de casa.
Não cessei de orar a Jeová para que lhe abrisse o coração e o fizesse ver o erro e o mal que me tinha causado.
Pedi nesses anos todos perdão e tentei perdoar tudo o que me fizeram.

Numa só semana recebi duas bênçãos.
Mais uma vez eu procurei meu pai, pela sétima vez eu lhe bati na porta para falar com ele, na terça feira dia 6 de Maio de 2003 a porta se abriu e nos abraçamos!
Não falamos ainda o que temos de falar.
Vai com o tempo, ele está com 72 anos e não é fácil para ele mudar e reconhecer sua teimosia e egoísmo, mas eu confio em Jeová, que toda a pedra dura se desfaz com amor!
Eu lhe falo agora todos os dias e espero dentre em breve poder voltar a abraçar a minha irmã de sangue e ver meus dois sobrinhos. O mais pequeno eu nem conheço ainda, pois ela também deixou de falar comigo e mais quando soube que eu me tinha junto às TJ.

E agora Jeová me está dando a outra benção que é encontrar meus irmãos na fé e que tal como eu sofreram nas mãos dos pastores.

A todos os meus irmãos eu deixo aqui uma palavra de consolação:
Nosso senhor Jesus o Cristo, advertiu para a apostasia e para os falsos profetas, para os que haviam de se apresentar vindo dizer o Mestre está ali, esse seria o sinal dos tempos do final deste sistema de coisas.

Nem tudo é ovelha, como nem tudo é pastor, por isso o Senhor está separando o trigo do joio e só Ele sabe quem é digno de receber as promessas do Cristo pois só o Pai conhece o coração de cada um.

Mateus 18:6
Mas se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar. 




Que a Paz de Nosso Senhor fique com vocês
Vossa irmã na fé

Leonilde Costa Santos
Algueirão-Mem Martins / Portugal


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